O amolador de facas
abril 2, 2007
Acordei com um som estranho vindo da rua. Uma mistura de maçarico com apito de guarda de trânsito. Olhei pela janela do apartamento e parado na calçada estava um senhor com um instrumento pra lá de poético: um antigo amolador de facas. Na verdade não reconheci de imediato a peça. Foi meu namorado que me vendo surpresa disse: “Mas você nunca viu o amolador de facas?” Ora, cá pra nós, nasci na década de 70 e, apesar de ter vibrado na adolescência quando comprei meu primeiro vinil compacto, não experimentei ouvir a música do amolador. Talvez não fosse um costume na Baixada, lugar onde vivi por 20 anos, ou talvez não fosse simplesmente do meu tempo. Se pensarmos que os jovens de hoje não conhecem o toca discos da antiga, a ausência desse personagem na minha história só faz confirmar a fluidez das coisas.
Minha euforia com a inusitada descoberta naquela manhã me fez sair de casa com uma câmera fotográfica na mão e ir a procura do amolador de facas e seu carrinho. Ele não estava mais na minha rua e comecei a seguir o som que cortava o quarteirão. Encontrei-o brincando com os mecânicos de uma oficina, que respondiam com assobios à melodia tirada da máquina. Seu Giovanni, um ítalo-brasileiro de 74 anos, contou-me que já não tem tantos clientes, faz apenas pequenos trabalhos para estabelecimentos como açougues, padarias e oficinas. No entanto, resiste em cumprir seu ofício, com alegria e coragem. Para mim, ele é um amolador de memórias…
Como já cantou Paulinho da Viola, “Meu sempre me dizia/ Meu filho tome cuidado/ Quando penso no futuro/ Não esqueço meu passado.” Se pensarmos bem, hoje a maioria dos homens dançam essa “dança da solidão”, buscando encontrar a ruptura com um mundo e a tentativa de criar outro, em uma tensão constante entre vida e morte, tradição e modernidade. E, parodiando Paulinho, pensar no futuro pressupõe não esquecer as experiências do passado. Nessa nova era, marcada no ocidente por uma cultura pluralista e fragmentada, é através da memória que temos a possibilidade de refletir sobre o mundo e o tempo presente.
É assim que o amolador de facas e o poeta se aproximam, pois ao mesmo tempo que mantêm uma tradição, reelaboram práticas culturais através da troca de experiências, de traços que testemunham o passado. Quando falo em tradição refiro-me tanto ao ato de transmitir ou entregar como o conhecimento oral e escrito. A poesia, enquanto objeto dinâmico, possibilita a transformação do homem em sujeito cultural, transmitindo conhecimentos e experiências para o outro, em um processo também de resgate da memória. São as experiências do/ sobre o mundo, as histórias do sujeito e da própria linguagem encenadas nos poemas que permitirão aos poetas constituírem uma memória humana necessária à vida. Através da palavra, eles registram cenas e acenos do homem e seu tempo de fragmentação e ruína, apresentando-nos novas perspectivas de olhar o mundo. Assim, rememorar significa também desempenhar a função de unir o começo e o fim.
Que possamos ouvir ainda por muito tempo o som do amolador de facas numa manhã de sábado…