Feiras no Rio

dezembro 3, 2007

Feiras no rioNeste último fim de semana, além da já conhecida Feira do Rio Antigo, na rua do Lavradio, todo primeiro sábado do mês, aconteceu mais uma edição da Primavera dos Livros, desta vez no Museu da República. Uma feira com gosto de feira boa, aquela que te deixa feliz com o passeio, os encontros, as comprinhas, o caldo de cana - aliás, dessa vez, substituído pelo cafezinho. Com uma programação cultural para todos os gostos e as editoras da LIBRE vendendo livros com descontos maravilhosos, o cafezinho e o passeio pelo jardim do museu completaram o sucesso da feira. Mesmo quem não comprou nada pôde experimentar o seu ar poético. Porque feira é sem dúvida alguma lugar de poesia. 

Lembro do meu pai aos domingos. Como num ritual todo seu, levantava cedo, tomava um café, sempre assobiando uma canção lenta, caminhava até à feira, conversava com os feirantes, encontrava amigos e falavam de nada tão importante assim, era capaz de ficar horas na barraca dos passarinhos, admirando-os e procurando conhecer mais dos seus segredos – eu não entendia bem aquele gosto pelos pássaros nas gaiolas, mas… -, depois voltava pra casa trazendo uma verdura ou outra coisa qualquer que lhe desse na telha, algumas vezes levava uma rosa pra mamãe, e ela gostava e acabava desculpando suas faltas. Foi assim que aprendi o sentido da feira e ainda hoje saio às vezes pra ver os peixes, os temperos coloridos, as medidas das bacias e dos lotes, as flores da xepa, que sempre levo pra casa.  

Na ´confusão´ da feira, como faz também o poeta, você acaba aprendendo a ver as coisas pequenas, as metonímias que compõem uma atmosfera maior. Aprende a reconhecer frutas não com a etiqueta do supermercado mas com aquele que trabalha com elas e vive delas e sabe sobre elas o mínimo necessário ao seu ofício. É uma troca sempre o ir à feira, é um diálogo que vai do cumprimento ao seu vizinho que acabou de passar por você e os olhos se cruzaram fora do elevador até o contato com as linguagens diversas presentes, a fala da sedução, os regionalismos, as gírias e toda uma gama de construção enriquecedora.

A feira no museu também nos deu isso. Foi de fato um ”dia de festa”, como sugere a raiz da palavra latina feria. E os livros modificaram o cenário da primavera carioca. 

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